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sexta-feira, 10 de março de 2017

A gota d'água

            Não aguento mais.
            Não mesmo. Acordar todo dia antes das seis. Estou esgotado. Chegar no trabalho e pegar a moto. Não aguento mais. Sair pela rua antes de todo mundo. Estou exausto.
            Exausto.
            Com esse enorme peso nas costas. Toda responsabilidade do mundo. Todo mundo cobra. Não tenho mais cabeça. Estou ficando louco. Doidinho da Silva. Não vejo a hora de bater as botas.
            Não vejo a hora.
            Ainda tem mais. Tem dias que eu nem volto pra casa. E quando eu volto não tenho tempo. Tô com um parafuso a menos. Sem tempo. Meu trabalho me persegue. Em casa, na TV, na praia. É uma mancha escura.
            Escurérrima.
           Dois anos atrás fui numa ocorrência. O pai tinha estuprado a filha de dois anos. A idade da minha filha. Perdi toda a fé na humanidade naquele dia. Surrei tanto o filho da puta que o IML nem recebeu o corpo. Mandou logo queimar. Naquele dia Deus desapareceu pra mim.
            Sumiu.
            Chegar em casa depois disso. Olhar nos olhos da minha filha e ver aquela menina toda esfolada. Fudida. A mãe era puta. Morava só com o pai. Me fez perder ainda mais a cabeça. Já tinha desistido. Mas ainda tinha por quem ficar vivo.
            Ou só existir.
            O nome dela era Wanda, minha filha, tinha 4 anos. Era linda, parceiro. Prodígio. Sabia somar como ninguém. Tocava flauta, parecia o flautista de Hamelin.
            Minha filha.
Mas o fim foi o que aconteceu no dia onze de setembro de 2014. Invadiram a creche da minha filha. Mataram os funcionários e estupraram a professora dela na frente dos alunos. Depois amarraram todos e incendiaram a creche. Minha filha tava lá.
Minha filha.
Você deva tá se perguntando: “Cadê a mãe dessa criança?’. Morreu no parto. O médico mandou escolher ela ou a criança. Quem disse que deu tempo? Retiraram a criança de dentro da mãe morta. Quando minha filha morreu, minha vida perdeu sentido. Foi a gota d’água.
            Era só vazio.
           Não me importava mais em morrer. Persegui os vagabundo por anos. Achei a boca dos cara. Matei. Queimei. E agora não tenho mais oque fazer. Só vou terminar meu dia. E todos vão me deixar em paz. Vou me encontrar com minha família de novo.
            Newton Navarro me espera.


Dante Othon

quinta-feira, 9 de março de 2017

A bênção, tio?

     Minha primeira vez foi numa casa de praia da minha família. Eu havia acabado de completar 12 anos. Meus pais e minha tia saíram para jantar. Fiquei sozinha na casa. Bom, sozinha não. Eu e meu tio. Ele me levou para seu quarto. Meu tio era um cara bacana. Ele ia ao culto todo domingo. Era um bom vizinho. Levava meus primos à escola. Até participava das reuniões. Cedia seu lugar no ônibus para os mais velhos. Era uma boa pessoa. Ele gostava de crianças. Gostava de meninas. Mas não era um estuprador. Não era um pedófilo. Não faria nenhum mal a sua sobrinha.
     A segunda foi na casa de meus avós. Era domingo. Dia de almoço em família. Eu disse que não queria. Ele não ligou. Disse que era só um carinho. Eu gritei. Ninguém escutou. Estavam comendo. Estavam sorrindo. Estavam falando da nova obra de caridade do meu tio. Ele ajudava as crianças. Eu era uma criança. Ele não me ajudava. Ele me batia. Mas, porra, ninguém me ouvia!
     Decidi contar a minha mãe. Ela me amava. Ela entenderia. Mas ela também amava meu tio. Será que me escutaria?
     Meu pai era meu protetor. Ele me amava. Ele entenderia. Mas ele jogava futebol com o meu tio. Chamava-o de irmão. Será que me escutaria?
     Minha tia também me amava. Não tinha mais opção. Ela me escutaria. E ela me escutou. Mas não se importou. A culpa era minha. Quem mandou ser exibida? Quem mandou ser tão bonita? Quem mandou ser tão vulgar com 12 anos? Quem mandou? Hein? Você é só uma menina. Nunca ajudou ninguém. Nunca deu seu lugar aos mais velhos no ônibus. Nunca foi ao culto no domingo. Nunca fez nada! Então trate de ficar calada.
     Medo. Eu só sentia medo. Dor. Meu corpo estava imerso em dor. Nada. Eu me sentia um nada. Rosa. Era a cor dos comprimidos em minha mão. Coragem. Era o que me faltava. Nos meus pais eu pensava. Por minha vida eu chorava. E a Deus eu orava. Mas nada disso importava. Eu não valia mais nada. Havia sido maltratada. Abusada. Humilhada. Desumanizada. Eu já estava cansada.
     Amargo. Era o gosto da droga em minha boca. Mas não mais amargo do que a dor. Nada era mais amargo do que a dor. Precisava fazer parar. O sofrimento tinha que acabar.
     E acabou.

Ana Caroline

Milene André

quarta-feira, 8 de março de 2017

Marias

6h. Sua mãe ainda não começou a limpar a casa hoje. Tá tudo sujo. Você não tem condições de limpar, pai? Suas mãos caíram? Esse também é o seu papel. Briga.
8h da manhã. Caminha na rua. Moto. Buzina. Encara. Olha pra frente! Quer bater?
Ônibus lotado. Será que posso sentar aqui? Pergunta, gentilmente.  Percebe um homem encarando. Secando. Descarado. Quer me comer? Quer? Ridículo.
Desce numa parada próxima ao trabalho. A pé novamente. Passa por uma construção. Várias sacolas na mão. Um peso e um passo. Fiu fiu. Cantada barata. Reta sem palavra. Tá assoviando pra quem? Atrevido.
Hospital. Lotado. É enfermeira, ágil e cuidadosa. Você precisa de uma dose de benzetacil. Parece desconfiado. Ela vira as costas. Descarado. O paciente questiona a necessidade do medicamento com o enfermeiro ao lado. Algo errado? Precisa de uma segunda opinião específica?  O estagiário não dirá algo diferente da enfermeira-chefe.
Rotina e cansaço. Mais ônibus lotado. Só que é sexta. Sexta! Alegria e prazer. Produzida. 00h. Vestido colado. Sensualidade de mulher. Que roupa vulgar! Se dê o respeito! Filha minha não se veste assim. Na sua idade não usava essas roupas.
Música alta. Bebida free. Tudo harmonizava. Batida. Dança. Bebida. Leveza alcoólica. Tá bêbada? Se dê o respeito! Mulher educada não bebe.
Mulheres. Machismo. Até quando? Avante, Marcha das Vadias!


Maria Fernanda
Yasmin Cruz 

O caso


            Meu nome é César e tenho 17 anos. Minha mãe me botou esse nome por parecer nome de rico, até porque na Bíblia tem dizendo: “Dai a César o que é de César”. Moro na favela do Japão, lugar onde desde criança vi o mundo com os olhos diferentes. Olhos de favelado. Sim, favelado é o que sou.
            Filho de mãe solteira, me vi rodeado, por toda a vida, dessa miséria de lugar. Miséria não, que é daqui que tiro o sustento. Graças ao meu cerebelo, consegui sair da lavanderia de mamãe, onde trabalhava para ganhar o mundo e ser dono das três maiores bocas da região. Minhas ferramentas de trabalho são o crack, a coca e a erva. Toninho traz da Bahia e eu revendo aqui. Também tem o tal do docinho, produto principal que vendo aos boys do colégio Palmares.
            Semana retrasada, tive uma treta com um tal de Ricardo, pistoleiro famoso aqui da “ZO”. Mandei ele fechar o veaco Marcão.  O feladaputa me desobedeceu. Ele por certo não sabia com quem estava brincando.
            Naquele mesmo dia, reuni meu bonde para ir atrás daqueles dois arrombados. Cléber e Lúcio trouxeram as nove e saímos pra guerra. Ao chegar no bairro da Esperança, na nua Natal, avistamos um primo de Marcão. Jogamos ele dentro do carro pra tirarmos satisfação. Enchemos a cara dele de porrada. Até que ele falou o endereço onde se encontrava o Marcão.
            No final daquela tarde, armamos uma emboscada. Ficamos de tocaia na esquina até o momento em que ele deu as caras. Começaram os disparos. Derrubamos o veaco, mas logo apareceu o Ricardo com uma SMG, expulsando-nos da região. Foi o maior aperreio. Éramos três, mas ele tinha uma SMG, o que nos fez correr. Saímos correndo em direção ao carro e só conseguimos escapar porque a chave já estava na ignição.
            No dia seguinte, a notícia estava em todos os lugares: Tribuna do Norte, Papinha e até mesmo no RN TV. Saímos nas duas edições. Meu nome ficou inflado em toda Natal. Nunca fui tão respeitado. A minha moral aumentou 300% naquele dia.
            As matérias diziam:
            Tiroteio no bairro da Esperança tira a tranquilidade dos moradores e deixa uma morte;
O amante do famoso pistoleiro, Ricardo Bala, é morto em tiroteio na tarde de ontem. 
            Pois não é que os veados tinham um caso!
 Matheus Oliveira 
 Eudes Silva 
            

terça-feira, 7 de março de 2017

Ditadura pra quê?

     Ora. Quem já se viu? Volta da ditadura. Vai pra puta que pariu. Ele tá pensando o quê? Que a volta da ditadura é bom? Bom pra quem? Pra mim é que não é. Ele já viveu alguma ditadura? Já viu gente morrer? Não? Mas eu já vi. E posso lhe garantir. Ditadura não é bom. Nem pra mim, nem pra você.
     Você já viu arma garantir paz? Já viu violência garantir ordem? Pau-de-arara fazer coisa boa? Nem. Ditadura? Ditadura cheira a morte. Sim. Morte. Estupro. Tortura.
     Não. Não caio nessa. Não, senhor.
     Ditadura é uma senhora. Velha. Decrépita. Morta. Enterrada. Deixa-a lá. Fria. Esquecida. Decomposta. Acabada.
     Dor. Dor. Dor. Foi tudo o que ela trouxe. Dor psicológica. Dor carnal. Opressão.  Centenas de pessoas violadas por aqueles de arma na mão. Sim.  Aqueles que juraram morrer para defender a pátria. Mas que coisa mais sem cabimento. Sem lógica. Sem sentido. O mundo precisa é de paz. De flores, em vez de canhões. Tem coisa mais bonita que a paz? A paz é branca. A paz é linda. Paz! Sim. Precisamos da paz.
     Mas aí vem um jumento como esse. Demente como um mosquito. Querendo ressuscitar um regime autocrático. Sai pra lá sem juízo! Esse tal de Bolsonaro não tem o que fazer não, seu Francisco? Tanto assunto urgente. Pobreza. Miséria. Insegurança. Péssima saúde. E ele se preocupa em restaurar isso! Dizendo que é pro bem de todos. Pro bem de quem? Pro meu é que não é.
     E o senhor, seu Francisco, com essa cara de cachorro sem dono? Ainda vem me pedir para votar nessa milícia? De forma alguma. Jamais.
    E quer saber de uma coisa? Que se lasquem. Não estou nem aí. Eles que caminhem. Que subam morro acima com essa ruma de cartaz ridículo. Que andem pelas ruas de toda a periferia. A tarde toda. Eu é que não vou. Participar da molesta dessa passeata. Eles que tomem a praça. Com essa cambada de inútil. Não vou mesmo. Porque eu já cansei de toda essa asneira. Que coisa mais Idiota! Não. Não vou colocar minha vida nas mãos dessa elite sem noção. E já chega. Não vou sair na rua com essa ruma de babão. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. Só quero que me deixem sozinho. Eu e a minha língua verdadeira. Que só os mais espertos entendem. Compreendeu?
    E não. Já disse ao senhor, seu Francisco. Em 2018 não voto em Bolsonaro. Ora! Que chatice! Tá pensando o quê? Que eu vou contribuir com essa tolice? De forma alguma. Eu já vivenciei uma ditadura. É horrível. Perdi muitos familiares. Amigos. Presenciei a tortura de meus professores. Do padre da minha cidade. O sumiço de diversas pessoas. E sabe o que aconteceu? Nunca mais apareceram. Não. Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Nem morta. E eles que não venham na minha porta. Não entram. Não deixo. Já chega. Acabou.
   Ah, não vou.


 João Pedro B. Neto

Amélia

Acordada às cinco. Limpando. Cozinhando. Passando. Esfregando. Dentro de duas horas o marido acordará. Tudo tem que estar pronto. Prepara as crianças. Toma banho. Arruma o cabelo. Passa perfume. É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido.
        — Bom dia, querido! O café já está esfriando na mesa.
        — Onde pensa que vai vestida desse jeito?! Mostrando as pernas. Pedindo para ser estuprada. Mulher MINHA não sai assim.
      Troca de roupa. Humilhada. Gastara tanto tempo escolhendo aquele vestido azul. Os filhos aguardam brincando na sala. Enxuga as lágrimas. Retoca a maquiagem. Vamos, crianças, a primeira aula já vai começar.
        Deixa os filhos na escola. Caminha rápido pela calçada. Olhando para o chão. Passa em frente a uma oficina. Tarde demais. Já está esperando. Fiu fiu. Ô lá em casa! Não pode andar sozinha que vem logo um amolar. Só queria não ter que passar por isso todos os dias.
        Entra no carro. Engata a marcha-ré. Sai do estacionamento. Outro motorista não a vê. Os dois carros se tocam. Foi suficiente para arranhar a pintura de ambos. O motorista não esconde a raiva. Tinha que ser mulher! Passa no supermercado. Faz as compras do mês. Começa a pensar no almoço. No jantar. Nas outras coisas que tem a fazer. Dar banho no cachorro. Dobrar as roupas. Guardar as compras. Lustrar os móveis. Aspirar o pó do tapete. Lavar os banheiros. Não pode se dar ao luxo de descansar. Afinal, não trabalha mesmo!
        Chega em casa. Pendura as chaves. Cumprimenta o cachorro, que parece desconfiado. Rega as plantas. Apanha uma almofada do chão. Estranho. Sente o cheiro de um perfume desconhecido. Fragrância doce. Um barulho atravessa os cômodos da casa. Algo caiu no chão do quarto. O porta-retrato com a foto das férias em família.
        Sobe as escadas. Silenciosamente. Pela brecha da porta avista o marido. Despido. Aos beijos com a dona do perfume. Não é possível! Como ele pôde fazer isso? Ele que sempre foi o único homem de sua vida! Uma lágrima desce. Ele a vê parada na entrada do quarto. Por um instante perde o ar.
        — Não é o que você está pensando. Ela que chegou me provocando.
        — Mas você não se importou de se entregar aos encantos dela, não é?
        — Você tem que me dar uma segunda chance.
        Segunda chance? E se o tivesse traído? Não haveria perdão. A chave que entra em várias fechaduras é uma chave-mestre. Já a fechadura que permite a entrada de várias chaves é uma fechadura quebrada.
        Ninguém acreditaria em sua palavra. Ele sempre fora perfeito. Seria julgada para o resto da vida. A desordem em uma cama desperta no marido a vontade de ir dormir fora de casa. Já dizia sua bisavó. Se foi traída, foi por descaso. Porque não fez seu homem se sentir o único. Dono do mundo. Seu dono. Não se importou com o bem-estar do lar. Não o satisfez. Não foi mulher o suficiente.        

Helen Caroline

Escrevendo-se

Eu tentei. Eu juro que tentei.
Mas foram provas e provas; e trabalhos e trabalhos; e fórmulas e fórmulas. A mesma e velha vida de aluno do IF.
Tentei.
A ideia só não vinha. Não veio. Pensei na educação e na política. Na ciência e na religião. Nos livros. Na pasta de dente. No celular. No lápis. No papel. Na televisão.
Nenhum pareceu certo.
Este também não parece certo; não me entenda mal. Foi o mais criativo em que consegui pensar. Vagueei entre temas. Olhei o tempo passar. Fiquei no quarto o dia todo. Encarei o computador por horas. Foi com esse “tema” que acabei.
São quase oito da noite.
Já sei. É um trabalho de Língua Portuguesa, não é? Pensei na metalinguagem. Um texto sobre o texto. Tudo aquilo que aprendemos na aula de alguns meses atrás.
O que estou fazendo? Tentando escrever como quem escreve?
Devo me basear em Marcelino Freire. Como? Como fazer algo parecido? Algo minimamente próximo à teimosia de Totonha? À dor de Da Paz? À raiva de Nação Zumbi?
Não sei. Solto palavras. Espero que elas façam sentido de alguma forma.
São quase nove da noite.
Releio o que já escrevi a cada dois segundos. Retiro o insistente gerúndio. Encurto as frases. Pergunto. Coloco pontos finais.
E o título? Como pensar num título para isso? Não posso nomear algo que nem sei sobre o que é.
São quase dez da noite.
Acho que não vou entregar isso. Deixarei salvo, com certeza. Mas não será meu trabalho. Vale muitos pontos na média, afinal. Tem que ser algo com mais significado. Acho que vou voltar para a educação. Estamos numa crise nesse meio.
Mas todos falam sobre a crise.
O polêmico. Não quero escrever o que todos escrevem. Eu não escrevo. Não vou usar um momento tão raro para falar sobre o que já sabem.
São quase onze da noite.
Acho que estou perdida.
O texto não deu duas páginas ainda. Não sei o tamanho adequado. Acho que ainda é pouco. Vou continuar escrevendo.
É quase meia noite.
Tenho prova na segunda. É sábado. Ainda não estudei. Deveria ter escrito isso pela manhã. Ou pela tarde, no máximo. Mas é quase meia noite. Ainda estou aqui. Tento tirar um pouco do peso da consciência por ainda não ter terminado.
Só continuo escrevendo. Não consigo parar.
Deveria estar fazendo o trabalho verdadeiro. Aquele, sobre o qual falei antes. O polêmico, com perguntas reflexivas. Questionando o motivo do mundo ser como é.
Mas não dá.
Peço perdão a minha colega. Ela acha que eu já fiz o texto. Pensa que fiz o da educação. Mandei uma mensagem. Avisei que não faria sobre isso. Ela não viu. Já foi dormir. E eu continuo aqui, no quarto. Ainda encarando o computador.
Acho que é isso.
Deu quase duas páginas. Tenho que pensar no de verdade. E na prova. E nos outros trabalhos. Ainda tenho que pensar no título. Desse (deste?) e do outro.
            É uma da manhã.
            Acabei.

Beatriz Egito


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Massa?

             Ser ou não ser um maconheiro? Eu não tenho essa opção. Desde a minha infância vivi na favela. Isso mesmo. Lá no Mosquito. Nunca me deram oportunidade. Nem de aprender, muito menos de sobreviver. Lá eu sempre fui aviãozinho. Um moleque à procura de comida. Em um país onde dizem que educação é prioridade. Eu não sou prioridade. Me acostumei. Conheci a erva. Nela achei paz. Assim segui em frente. Sem nunca olhar para trás.
            Hoje, algumas pessoas vêm me perturbar. Querem me ajudar. Moço, você precisa de ajuda? Caramba! Eu não preciso de ajuda. E isso não é uma desculpa! Por que precisaria? Vivo de boa. Sorrindo à toa. Sempre consigo comprar comida. Fumar minha massa. Vou querer mais o quê?
            Todo mundo acha que sou fora da lei. Só porque a minha massa é proibida? Dizem que é bom. Dizem que não presta. Não querem discutir. Alguns querem liberar. Mal eles sabem que o meu fumo faz um bem danado. Relaxa, acalma. Faz levitar a alma.
            Eu sou maresia. Como dizia Gabriel Pensador. Só que havia uma velha. Infelizmente, ela morava na mesma rua que eu. Católica roxa. Sempre estragava a minha lombra. Com o seu discurso de amor ao próximo. Queria me levar para uma casa de recuperação. Ela é que precisa se recuperar da sua noia. E me deixar em paz de uma vez por todas.
            Essa lazarenta ficou me abusando. Dia após dia. No final de semana, eu estava relaxando no quintal de casa. Preparei o reggae. A massa estava pronta. Comecei a viajar no aroma da paz. E adivinha quem apareceu? Não foi o Bob Marley. Muito menos um unicórnio cor de rosa. Eu tentei ver quem vinha. Minha vista estava um pouco embaçada. Meu Deus! É o Satanás! Antes fosse... Era a infeliz da velha coroca de novo. Ela me veio oferecendo um terço. Enfie esse terço no... bolso.
- Por que você não vai à minha igreja? Lá vamos te ajudar. Deus é maravilhoso.
- Se quisesse ajuda, teria pedido, não?
Sem querer, aumentei o tom de voz.
- Eu não quero a sua ajuda e de mais ninguém!
E lhe dei um empurrão. A condenada caiu. Bateu a cabeça. No chão. Deu merda. Matei a coitada. A vizinha viu tudo. Logo, chamou a polícia. Fui preso e indiciado por homicídio doloso e tráfico de drogas. Os “home” acharam vinte quilos de maconha lá em casa. Era só pro consumo. Não teve jeito. Fui em cana.
No caminho da delegacia, presenciei um acidente. Uma jovem que bebeu demais atropelou os noivos e o padre na porta da igreja. Veio logo a indignação. O álcool mata tanta gente... E esse caso foi mais um na estatística. O tabaco continua viciando pessoas. Causando câncer. Já viu alguém causar um acidente por causa da erva? Já viu o marido bater na sua esposa por causa dela? Eu nunca vi. Mas por causa dessas outras drogas sim. Quando será que o povo vai enxergar isso? Mas o meu fuminho não pode. “Ele é do mal”. Sistema hipócrita.
Chegando na prisão, eu conheci os criminosos de verdade. Entravam e saíam cada vez mais perigosos pra sociedade.
Um mês na cadeia. Notei algo estranho. Alguns presos estavam se suicidando. Era a notícia que rolava. Será? Todo mês apareciam novos casos. O diretor dizia que era normal. Deu até no Jornal Nacional. Veio uma equipe de reportagem. Gravou toda a situação. Os presos todos amontoados. No chão. Mas o que eu posso fazer? Já estou nessa prisão. Todo dia me vem a revolta. Até quando vou ficar nessa bosta? Quando eu precisei, ninguém quis me ajudar. Mas quando estive de boa, esses hipócritas vieram me atrapalhar. Só me resta esperar. Ansioso. Ao mesmo tempo temeroso. Sempre preso na mesma indagação. Quando chegará a minha libertação?

Adriano Rodrigo

            

domingo, 17 de julho de 2016

Posto de doença

Cheguei aqui de seis horas e nada de ser atendida. Só vejo pessoas chegando. Cadê? Onde estão os médicos? Não posso passar o dia aqui. Minha filha está morrendo de febre. A s dores não param. Foi aquele mosquito maldito. Mosquito não, mosquita. Necessito falar com alguém.
 - Ei, enfermeira. É, você mesma. Não vê? Estou aqui há séculos. Não só eu. Não vê que a dezenas de pessoas aqui? Temos que ser atendidas. É nosso direito.
            - Minha senhora, eu não posso fazer nada. Aqui no parque das dunas não tem um bom atendimento. Tem que esperar. Tenha paciência. Deixe a gente trabalhar.
         Não vou mais ser da paz. Vou fazer uma revolução. Parar tudo e chamar a atenção. Vou fazer vir a polícia. A TV Cabugi vai nos gravar. Como pode uma coisa dessas? Eu pagar todos os meus impostos e não ser atendida?
            - Ei todos vocês. Não devemos aceitar esse descaso. Temos que ir à luta. Não podemos ficar esperando por algo que não chega. Devemos buscar! Buscar! Buscar! Até conseguir receber o que nos foi roubado. Como pode um deputado ganhar milhares? E tem aqueles que ainda roubam. Não milhares, milhões. E a área da saúde precisando de coisas simples. Esse dinheiro deveria estar nos hospitais; nos postos de saúde e em tantos outros lugares importantes.
            - Senhora, pare, por favor. A sua filha terá que ir a uma unidade de saúde. Não temos suporte médico que possa atendê-la. O transporte está chagando.
            Mais uma vez terei que ir a outro lugar. Quantas vezes isso aconteceu? Não sei. Foram muitas.
            - Vejam o que estão fazendo. Nos fazem vir aqui. E aí? Você foi atendido? Mais uma vez terei que me deslocar. Minha filha está morrendo. Parece que não somos nada. A gente só serve para os eleger. Minha filha precisa de um atendimento rápido. Estão vendo o seu estado em meus braços?

            - Senhora, o transporte chegou. Vamos.

Rickson Andrade

sábado, 16 de julho de 2016

Deficiência pública

           Isso é um descaso! Espero duas horas numa parada de ônibus descoberta e abandonada. Absurdo. Ainda tem os motoristas safados. Não param. Seguem viagem. Paciência. Coisa que eu não tenho. Meu ônibus chega. O motorista desce. Me coloca no elevador. Ele emperra. Meu Deus. Agora mais essa. O motorista tenta, mas nada acontece. Começam a reclamar: “Esse aleijado tá atrasando a viagem”. ” Anda logo, motorista”. Isso é uma vergonha, respondo. Pago altíssimos impostos. Tenho meus direitos, sim. E continuam: ”Deficiente é uma praga”. Sociedade do desprezo. Algumas pessoas tentam ajudar o motorista. Nada conseguem. Mais lentidão. Eles resolvem me tirar da cadeira. Me colocam no ônibus. A cadeira vem junto, resmungo. Resolvido. Vamos seguir viagem, penso. Porém o ônibus não fecha a porta. Nem sobe, nem desce. Todos me encaram. Recebo “elogios e carinhos” a todo momento. Tenho o direito de ir e vir. De fazer ou refazer o que bem entender. Sou cadeirante. Tenho minhas dificuldades. É verdade. Desce mais um. Provavelmente, com nojo ou revoltado. Por que sou cadeirante? Ou por que sou gay? Sim. Sou gay. Homossexual. Falem o que quiser! Nada me interessa. Só ele. O Rodrigão. Negro. Alto. Boca carnuda. E só meu! Ai meu coração! Somos casados há três anos.
           Esse tumulto me faz lembrar de ontem. No supermercado. Quando fomos fazer umas comprinhas. Eu e o Rodrigão. Ele estacionou o carro. Me colocou na cadeira. Vimos um delegado. Bem vestido. Estacionou na vaga preferencial. Na minha vaga! Fomos falar com ele. Perguntamos o porquê de estacionar ali. Estaciono onde quero, ele falou. Mas é para pessoas com deficiência, expliquei. Ele sacou a arma. Nos ameaçou. Disse que era um desacato. Falou para irmos embora. Ou resolveria como nos velhos tempos. Na bala. E fomos para outra loja. Fiquei bastante perplexo com aquele acontecimento. Pensando bem, não sou eu o deficiente. São todos que me ignoram. Desprezam pessoas que só querem viver. Simples. Precisamos de mais respeito. De menos condolência. Chego na minha parada.

Cláudio Silva

Moça, não sou obrigada a ser feminista

Frescura! É frescura sim. Um menino pode passar e você falar da bunda dele pra suas amigas. Mas se ele diz “Psiu!”, a senhora já vai pro Facebook protestar. Ah, me poupe! Deus me livre de uma feminista me ver falando isso. Elas dizem logo: “Se defende é porque gosta.” Ei, querida. Não gosto não. Nenhuma garota gosta. Mas, ao contrário de você, nós ignoramos. Não queremos chamar a atenção. Não nos fazemos de coitadinhas na internet.
Ontem, Juliana e Carol estavam lá em casa. Falando sobre esse papo de feminismo.
- Nós só queremos a igualdade de direitos. Queremos que nos parem de ver como coitadinhas. Não precisamos de um homem para nos defender. Somos tão fortes quanto eles. Podemos nos defender de qualquer coisa. Sozinhas. – disseram elas.
Ligo a TV. Está passando o caso do homem que entrou no quarto da Ana Hickmann. Tentou matá-la.
“O suposto fã fez a apresentadora. O cunhado. Sua mulher de reféns. Obrigou os três a se sentarem de costas. Começou a insultá-los. O cunhado levantou-se. Foi em direção ao criminoso. As vitimas saíram correndo do apartamento. Gustavo, cunhado de Ana, entrou em luta corporal. Conseguiu desarmar o agressor.”
- Nossa! Mas que cara machista esse Gustavo. A Ana é que deveria ter entrado em luta corporal. Salvaria todos. – ironizei. E disse mais: Ninguém nunca fala sobre esse peso. Jogado nas costas do homem. O homem só tem privilégios!
Carol percebendo minha ironia, abriu logo o bocão:
- Pelo amor de Deus! Você não percebe que o machismo afeta a todos, inclusive aos homens? Eles têm sempre que ser heróis. Por isso, eu quero igualdade em tudo. E não privilégios. Quero ser respeitada pelo que sou. Pelo que faço. Não pelo que visto.
Não fiquei calada. Rebati:
- Igualdade? Somos seres diferentes. Homem e mulher. Feminismo só serve para quebrar a harmonia. Com falsas palavras cheias de glitter. Temos dois tipos de seres na nossa espécie. Somos diferentes. Temos responsabilidades diferentes. Temos deveres diferentes.
Mas ela não desiste de tentar me levar para o lado feminazi. Disse:
- Então, temos nossos deveres. Vamos cada um escolher os nossos. Não vamos deixar que digam do que somos e não somos capazes. Podemos fazer tudo.
Que menina insistente! Quando coloca uma coisa na cabeça, não tem quem tire. Mas para o azar dela, eu não sou fácil de ser convencida. Virar feminista? Jamais!
- Mulher, acorda! Então, se você pode fazer tudo, trate de se colocar no seu lugar.
Ela não hesitou em perguntar:
- E onde é o meu lugar?
Quis encerrar logo aquele mimimi. Eu já não aguentava mais. Então disse:
- Qualquer lugar. Longe de mim.
Acho que fui um pouco grossa. Carol percebeu. E, antes que a coisa ficasse pior, ela cortou o assunto. Mudou de canal. Levantei. Fui fazer pipoca. Quando voltei, estava passando em um desses canais de fofoca, fotos da primeira-dama do Brasil, Marcela Temer, ao lado do seu esposo Michel Temer.
- Eu acho engraçado como a vida sexual da Dilma parecia algo questionável. Relevante. Inclusive para a mídia. Mas todos tratam com naturalidade um velho nojento e asqueroso que “pega novinha”, né?! Sabe quantos anos ele tinha quando se apaixonou por ela? 62! Isso mesmo. Ela tinha 19. Uma menina ainda. Esse Temer é um ridículo! – disse Juliana, toda revoltada.
Não acredito que ouvi isso. Elas só podem estar me testando. Acabei de sair de uma discussão. Já vou ter que entrar em outra? E o pior de tudo é que Juliana vestia uma blusa. Escrito assim: toda forma de amor é válida. Olhei pra cara dela. Perguntei:
- Você lê o que está escrito em suas roupas antes de comprar?
- Eu estou falando sério! – disse ela.
- Eu também.  Vocês questionam tanto o amor. Dizem não ter cor. Nem sexo. Nem idade. Agora vem com essa. – acrescentei.
Ela se calou por alguns segundos. Pareceu ficar em resposta. Depois de um tempo, ela disse:
- É, pode até ser. Mas olha essa diferença de idade. Ele é praticamente um pedófilo.
Pedófilo??? Novamente, não pude acreditar no que estava ouvindo. É muita asneira para uma pessoa só. Não pude me conter:
- Como assim pedófilo?? 19 anos já é maioridade. Apesar de ser jovem, não significa que ela não sabia o que estava fazendo. Além do mais, os interesses da “menina” de 19 anos em se relacionar com um homem mais velho, melhor remunerado, não passam pela tua cabeça, não?
- Esse é o problema. Ele a comprou. – ela disse.
Cada palavra que saía da boca de Juliana me deixava mais indignada. Como é que essas feministas sempre arrumam um jeito de colocar a culpa nos homens? É incrível!
- Juliana, você é inacreditável. Quanta babaquice! Por que você e suas amigas mimizentas não ficam caladas? Fariam um favor para a humanidade.
Confesso que me exalto um pouco quando me tiram do sério.
Carol ouvindo tudo aquilo, se meteu:
- Ju, desiste! Essa daí é antifeminista roxa. Nem adianta discutir.
- Meninas, eu não sou obrigada a ser feminista! – disse.
Carol até já parecia conformada. Mas Juliana não. Ela estava mesmo disposta. Fazer minha cabeça era seu objetivo. Ela disse:
- Mas a mulher pode ser o que ela quiser. Graças ao feminismo.
Eu, já cheia daquele assunto, fui bem direta:
- Ora. Pois, se eu posso ser o que eu quiser, não sou obrigada a ser feminista, certo?
- Mas... – Juliana já ia rebater. Não deixei. Continuei:
- Eu não pedi para ninguém queimar sutiã por mim, pedi? Nem para colocarem peitos de fora. Muito menos levantar os braços com sovaco peludos, para lutar por uma coisa que eu não preciso. Se eu posso ser o que eu quiser, então respeitem a minha opinião.
Juliana, inconformada, ia dizer algo, mas Carol a impediu.
- Não. Tudo bem. Você está certa. Não vamos mais discutir isso. Não vai dar em nada mesmo. – disse ela.
Pegou a pipoca. Aumentou o volume da TV. Assim, terminamos o dia. Carol conformada. Juliana nem tanto. E eu com dor de cabeça. Nunca ouvi tanto mimimi em um dia só.



 Elainne Priscila

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Deu, tá dado




Caralho! Abra essa porta, menino! Porra!  Se esconde, vai. Minha mãe batia na porta freneticamente. Eu não sabia onde esconder alguém tão grande como Paulo. Pouco antes, estávamos em prazer eterno. Deitados juntos. Nos tornávamos um só. As batidas interromperam nosso pequeno carnaval.  Elas me tiraram dos braços másculos de Paulo. Onde esconder alguém tão grande? Belo. Perfeito. Gostoso. Não sei! Nilson, abra essa porta agora. Quero saber que gemedeira é essa no seu quarto.
Minha mãe não podia saber. Nem meu pai. Talvez eu não vivesse para contar a história. Paulo não é o primeiro e nem será o último a sentir o conforto da minha cama. Meu quarto, atrás da igreja, o banheiro da escola, enfim. Prazer. Eram meus ninhos de amor. Todos queriam mais. O que meus pais diriam? Não posso falar. Fico com umas “rachas” por aí. Uma máscara, apenas. Encenação forçada.
Pensei em me assumir. Para meus pais. Medo. Sinto medo. Pedi a Deus para me dar força. Meu pai diz: Deus nunca escuta veado. Era assim que ele iria me denominar. Uma semana atrás pensei em assumir meus casos. Casos loucos de amor. Xavier. Victor. Rickson. Vinícius. Paulo. Não os tiro da mente. Tantos lugares. Cada noite selvagem! Não vou contar. Não tenho coragem. Mas quem é minha mãe? Quem é meu pai? Para denominar o amor... Amor é amor. Seja ele qual for. Que foi, mãe?
- Por que não abriu a porta?
- Estava dormindo.
- E essa gemedeira?
- Não tem gemido aqui.
Ela olhou desconfiada. Saiu. Mandei Paulo embora. Um beijo. Quente. Bom. Gostoso. Saltou a janela.
No outro dia, fui decidido. Falarei com meus pais. O amor. Nada mais importa. Amo ser quem sou.
- Mãe, pai, preciso falar com vocês.
- Pode falar.
- Eu sou gay. Sempre fui, mas tinha medo de falar.
Ficaram olhando para mim como se estivessem sonhando. Minha mãe desmaiou. Meu pai foi ajudá-la. Naquela tarde, a levamos para o hospital. Recebeu alta à noite. Meu pai nada disse. Pela manhã,  só me falou uma palavra.
- Saia!
Não discuti. Não me opus. Fiquei calado. Talvez, um dia, eles me aceitem.   Fui.
Não olhei para trás.

Luan Filipe