Eu
estava voltando sozinha para casa, coisa que não fazia há meses, por volta das
dezessete e quarenta, quando me lembrei de uma noite adorável que vivi há pouco
mais de um ano. Naquele dia, o sol havia acabado de se deitar quando saímos
pela primeira vez. Estávamos abraçados, ainda que nossos corpos não estivessem
tão próximos naquela ocasião. Estávamos a caminho de algumas apresentações
culturais e a nossa felicidade era algo absurdamente grande. Era maior do que o
barulho que os mais de quarenta alunos faziam dentro daquele ônibus antigo e
desconfortável. Era a primeira vez que realmente ficávamos juntos. Nos
sentíamos íntimos, apesar de nossas conversas, antes desse dia, terem sido
apenas por essas novas cartas instantâneas e, das poucas vezes que nos vimos
pessoalmente, o silêncio tomasse conta do ambiente. Era como uma contradição,
sabe? O que mais afasta as pessoas nos tempos atuais nos uniu.
Meses
antes, eu me sentia profundamente vazia de mim mesma, sem nada nem ninguém que
pudesse preencher o buraco negro que havia se instalado em meu âmago. Passava
horas tentando não relacionar minha solidão com os livros de autoajuda que os
meus colegas indicavam. Mas, felizmente, como o grande autor Nei Leandro de
Castro disse: “tristeza cansa, meu amado”. E, depois de semanas daquele jeito,
eu havia me cansado.
A
partir daquele momento, inconscientemente, havia iniciado uma busca interna por
um poema vivo, por algo ou alguém com sentimento vivaz. Logo eu, que antes
questionava a importância de se ter alguém, de se ter companhia. Não me
permitia entender o motivo dos versos “ne me quitte pas”, de Jacques Brel,
terem tanta importância na vida dos casais. Até me sentir realmente só, eu
achava que nunca precisaria de ninguém. Mas acho que depois daquele dia, especialmente
aquele dia, eu entendi que nem tudo na vida é construído sozinho.
Ohanna Dezidério - dezembro/2015
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